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Travessia Longitudinal
Por: Yuri Berezovoy

Previsão do tempo para o fim de semana dos dias 29 e 30 de maio: nublado com 70% de possibilidade de chuva para a área das Agulhas Negras... Nosso objetivo primário era realizar a travessia longitudinal das Agulhas Negras. Uhmm... talvez fosse uma boa idéia adiar, mas mesmo assim partimos (Kika Bradford, Chistian Steinhauser e eu) para nosso abrigo em Serra Negra/PNI e o tempo cooperou!

Tiramos o primeiro dia para ficar dentro do vale do Airuoca e fazer um reconhecimento local. No abrigo, há uma foto de uma pedra que é exatamente a cara de um cavalo (parece a peça do xadrez) - revelando algumas fendas e um lindo diedro... Conversando com o Vanderlei, um matuto local, descobrimos que a pedra não é grande, tendo cerca de 30 metros de altura. Resolvemos uma investida de reconhecimento.

Após muito sobe e desce de carro, avistamos a pedra, e fomos em sua direção. Há fácil acesso para a parte de cima da pedra, da onde identificamos um teto logo abaixo e uma chaminé na “nuca” do cavalo. A caminhada até a base é curta, mas de mata fechada. A Kika entrou na chaminé, solando, bem estreita, saindo no cume da pedra. Segui os passos e da mesma forma sai no cume da Pedra. Caso não haja registros anteriores, sugerimos para essa possível conquista o nome de "chaminé pangaré", tendo o grau sugerido de 2º grau.
Descemos a base novamente para nos preparar para o “filé-mignon”: o diedro que sobe pelo pescoço do cavalo, passando pelo teto para terminar no cume. O diedro pareceu um excelente desafio em livre, num grau plausível de ser realizado, mas ao mesmo tempo desafiador. A fendinha formada pelo diedro nos permitia boas proteções em móvel, possibilitando também uma escalada em artificial, caso fosse preciso. Para não levarmos toda a tralha pela mata fechada, Christian ficou no cume com uma retinida, preparado para baixar algum material caso necessário.

Com tudo preparado, a Kika se equipou para guiar e eu fiquei na segurança. Ensaiando as primeiras passadas na pedra "suja" vejo a Kika baixar a cabeça e cobrir os olhos, dizendo haver abelhas. Ela desceu correndo para onde eu estava e tirei além das duas abelhas agarradas na roupa, 4 ferroes no pescoço. No meio desse processo, começo a ouvir o zum zum e grito para Kika "vai, vai, vai" para sairmos o mais rápido de lá. O Christian de cima também começa a gritar "abelha, abelha"... Largamos todo o material e saímos correndo, por eu ainda estar encordado, demorei mais a sair da mata e levei uma mordida no peito (a abelha entrou na minha camiseta) e outra na cabeça (entrou pela fresta do capacete).

Paraíso é assim... Para darmos um tempo, descemos ao Rio e eis que surge uma prainha de areia, com um boulder espetacular com areia por baixo. Fendinhas para os dedos, pedra "macia", movimentos variados - 2 trajetórias e dor no braço certo... A noite não foi tão fria, registrou 7 graus.

Acordamos com a passarada, leite e queijo da fazenda e partimos para o parque, que fica pouco menos de 1 hora de carro.

Começamos a caminhada às 10am. Seguimos contornando as agulhas como se estivéssemos indo para a Asa do Hermes. O final do caminho não é muito visível, mas há alguns totens e a trilha pouco marcada, além de caminhada por cima de pedras. Não tínhamos certeza de onde seria a entrada da via. Já havia feito outra investida na lateral das Agulhas para achar algumas vias do guia e nunca tinha localizado grampos. Caminhamos até praticamente estarmos de frente para o Hermes, escolhemos uma linha e resolvemos subir, sem indicações, totens ou proteções fixas.

Estava bastante frio, todos de gorro, meias grossas, roupas protegendo do gelado vento e o sol ia e vinha... O inicio era numa chaminé suja, com começo relativamente fácil - sua saída, numa virada de corpo e num domínio estilo "aderência de umbigo" foi um pouco mais complicada. Uma única proteção móvel, um friend grande, pode ser colocado antes dessa virada. Não tínhamos a menor idéia se o caminho estava certo ou se alguém havia passado por ali, não havia resquícios de passagem de ninguém.

Kika continuou por mais um sistema de chaminé até se deparar com uma grutinha/buraco à esquerda e uma passada bem exposta à direita. Pensando na melhor alternativa para a proteção do guia, chamou o Christian até ela e de lá deu segurança para ele, entalada com as pernas dentro da grutinha. Essa parada no buraco é essencial: não há possibilidade de colocação de proteção até esse ponto, uma queda nesse lance, sem essa parada, seria no mínimo sérios machucados e um resgate complicado. Com a parada, o guia fica mais protegido, porém, uma queda do guia seria extremamente desconfortável para quem estivesse dando a segurança, que iria ter sua perna esmagada contra a parede/tetinho da grutinha/buraco.

Christian guiou essa passada, que pode ser feita ou em tesoura (a Kika fez isso, não sei como) ou usando as costas de apoio numa saliência da pedra, fazendo uma meia chaminé e meio aderência pra agarrar uma mão alta em oposição, onde termina o lance. A parada foi montada com fita em bico de pedra, depois de seguir por um sistema de canaletas.
A via seguiu com mais uma chaminé curta e outro sistema de canaletas, muito interessante, chegando a 90º, mas que possibilitava entalamento de pés.

Mais outros sistemas de chaminés e canaletas e eis que surge um grampo, já pertinho da crista e que não protegia muita coisa, mas, que por seu o único até então, foi usado. 3 esticões, 2 proteções (sendo 1 fixa..). Não sabemos se seguimos o caminho correto, mas a subida até a crista está, ao nosso ver, de acordo com o guia quanto a IVsup E4 (ou até E5).

Chegando na crista (por volta das 3pm) encontramos alguns totens. O visual é i-n-a-c-r-e-d-i-t-á-v-e-l - pedras lindas em formações das mais loucas; tetos, lacas, esculturas diversas. Estávamos, naturalmente, preocupados com o horário. Resolvemos ir seguindo e tentar encontrar a via normal e descer por ela. Após caminhar por uns 10-15 minutos, nos deparamos com um vale enorme que deveria ser transposto para prosseguirmos. Tentamos contornar pela direita e erramos, ficou evidente que o caminho era para a extrema esquerda. Fomos obrigados a inventar um caminho para descer. Fomos descendo e num ponto chegamos a um local sem fácil maneira de prosseguir. Todos os lados levavam para algum abismo. Eis que em um dos lados, havia um grampo de 1/4 na metade de uma descida que serviu de apoio/escada para os pés, permitindo descer mais um nível. Nesse nível mais baixo encontramos um belo bico de pedra para montarmos o rapel e abandonarmos uma fita.

Desse ponto, fomos tocando para a esquerda e logo encontramos com a via normal.

Olhando para trás, a lua nascia por trás das Agulhas Negras. O vale do Paraíba abaixo estava coberto por espessas nuvens e trovoadas. O fim de tarde foi descendo, enquanto caminhávamos pela via normal. Saímos do parque por volta das 19:30, quase com o resgate pronto atrás de nós (prontos para subir a normal, se de fato tivéssemos algum problema lá atrás, não há a menor chance de ninguém naquele posto realizar um salvamento).

Fim de semana maravilhoso. Obrigado meu deus!!!

Não assinamos livro de cume, mesmo tendo chegado acima dos 2750m, vai rolar a revanche....


 

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