Pontos de Apoio
por: André Ilha
Evitar o uso de pontos de apoio
artificiais tem sido um constante tema de debates em
nosso círculo de escaladores, uma vez que a escalada
em livre é um dos objetivos mais evidentes contidos
no conceito de escalada natural. Mas o que realmente
vem a ser "escalar sem pontos de apoio"? Ou,
em outras palavras, como poderíamos definir com
precisão o que é escalada livre?
Na moderna concepção do esporte significa
não se utilizar, de forma alguma, dos pontos
de segurança (grampos, pitons, nuts, cunhas etc.)
para auxílio direto na progressão do escalador,
reservando-os apenas para proteção caso
uma queda venha a ocorrer. Isso implica não pisar
nem segurar neles, tanto para impulso quanto para equilíbrio,
em ascensões que se digam como sendo em livre.
Dentro desse conceito, descansar em um grampo também
é uma forma de usá-lo como apoio, pois
assim a continuidade de dificuldades, sem a presença
de locais naturais de repouso – platôs,
lacas, depressões e saliências de porte
na rocha –, estará sendo quebrada, e esse
é um dos fatores preponderantes na determinação
do grau de uma via, a ser assumido por quem se dispuser
a fazê-la em livre.
Mesmo que após descansar o escalador retome a
sua posição original no lance para o reinício
da ascensão, ainda assim estará usando
um ponto de apoio, pois terá se valido de um
artifício para dividir uma seqüência
de dificuldades em "n" partes, tornando-a
obviamente mais fácil enquanto menos extenuante.
Em outros países isso é chamado de aid-rest
(descanso com apoio), e as passagens assim executadas
são classificadas como sendo de A-0, pois encontram-se
a meio caminho entre ascensões em livre puras
e os artificiais convencionais.
A exceção evidente a esta regra corre
por conta das paradas no final das enfiadas de corda
onde não hajam locais naturais de repouso, ou
no-hands rests, se usarmos uma vez mais a terminologia
empregada no exterior. Mas a prática nos mostra
que tais casos são raros, e que a negativa a
esta afirmação decorre do fato de que
o nosso sistema usual de proteção, centrado
em grampos fixos de altíssima resistência,
permite a parada em virtualmente qualquer ponto da escalada,
sem que se tenha que buscar, necessariamente, um desses
locais naturais de repouso para descansar e trazer o
participante.
Um exemplo concreto: há uma seqüência
de lances no Paredão Soleil, entre o seu primeiro
platô e um óbvio buraco (locais de parada
naturais) que, se feita em livre de forma contínua,
terá uma dificuldade. No entanto, se for repetida
descansando-se em cada grampo, ou dividida em duas ou
mais enfiadas de corda por meio de paradas forçadas,
então sua dificuldade será inteiramente
diferente daquela.
E quando o escalador cai? Ao voltar à sua última
costura para se recompor não estará ele
usando um ponto de apoio artificial para descanso? Sim,
pois a queda significa que ele falhou em sua tentativa
de subir em livre aquele trecho. Deriva diretamente
deste fato um estilo de ascensão muito popular
em todo o mundo conhecido como "iô-iô",
onde o escalador, após cada queda, retorna ao
seu último no-hands rest (literalmente, ponto
de descanso sem as mãos) e daí recomeça
toda aquela seqüência de lances, visando
fazê-la de forma contínua. Conhece-se casos
de cordadas que consumiram mais de um mês de tentativas
em iô-iô até conseguiram, finalmente,
fazer em livre uma determinada enfiada de corda de dificuldade
extrema. A opção para este fanatismo seria
usar os apoios e assumir que não foi possível
fazer em livre aquela via.
Outra dúvida que constantemente surge é
se o escalador está usando um ponto de apoio
quando segura em um grampo apenas para costurá-lo.
Certamente que sim, pois isso além de ser uma
forma de descanso, especialmente após lances
de agarrinhas, freqüentemente serve como meio de
se recuperar o equilíbrio perdido ou abalado
após um lance difícil.
Repetir escaladas evitando o uso de pontos de apoio
artificiais é um caminho rápido, seguro
e eficiente para aprimoramento técnico individual.
Permite também que velhas vias conquistadas total
ou parcialmente em artificial subitamente voltem a despertar
interesse, para ver se é possível se "eliminar"
(evitar) os pontos de apoio até então
existentes. Essa prática tem como conseqüência
direta uma elevação substancial no nível
geral de habilidade dos escaladores, e faz com que certas
vias sofram drásticas mudanças de dificuldade.
Por exemplo: o Paredão Baden Powell, de acordo
com a concepção tradicional, é
classificado como 4o IVsup, mais um pequeno cabo de
aço (C). Se feito inteiramente em livre (cabo
de aço inclusive) no entanto, seu grau pula para
5o VIsup se os mesmos parâmetros de avaliação
forem utilizados, no caso os propostos pela Federação
de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro – FMERJ
em 1975.
Isso em absoluto não significa que todos devam
escalar dessa forma, pois a total liberdade de ação,
fruto da escolha pessoal, é uma das principais
características de nosso esporte, desde que terceiros
não sejam prejudicados como no caso de grampos
instalados para substituir dificuldades. Mas não
é demais pedir que relatos de conquistas e repetições
de vias já estabelecidas sejam precisos nesse
aspecto, para que se possa avaliar corretamente a dificuldade
de cada via e haver uma padronização da
nomenclatura específica, reservando o termo "escalada
livre" para aquelas que realmente o forem.
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