Manifesto da
Escalada Natural
por: André Ilha
Quando em 9 de abril de 1912 cinco jovens de Teresópolis
pisaram pela primeira vez o cume do Dedo de Deus, começava
em nosso país a prática de um novo esporte
já bastante popular em outras partes do mundo,
o Montanhismo.
Ganhando de imediato novos adeptos, o Montanhismo desenvolveu-
se tendo como óbvio objetivo inicial a conquista
de inúmeros picos ainda virgens no Rio de Janeiro
e em seus arredores e, à medida em que estes
escasseavam, a de novas vias de acesso a montanhas já
escaladas anteriormente.
O equipamento e as técnicas empregados por esses
pioneiros eram evidentemente bastante primitivos, parte
devido à própria época em que essas
ascensões se deram, parte pela falta quase que
absoluta de contato com outras regiões nas quais
a escalada em rocha se encontrava mais desenvolvida.
O uso de troncos e escadas como auxílio direto
na progressão do escalador era a regra, e a proteção
inteiramente baseada em grampos, artefatos de segurança
que, uma vez aplicados, marcam irreversivelmente a rocha.
Cabos de aço eram considerados uma técnica
refinada, e o expoente máximo no uso deste artifício
foi o infatigável escalador Sílvio Joaquim
Mendes, que ao longo da década de 40 produziu
diversas escaladas, algumas notáveis, com este
recurso.
Não havia qualquer preocupação
com estilo pois então, muito compreensivelmente,
o importante era completar a escalada e atingir de qualquer
maneira o cume visado. Os fins justificavam os meios.
Pouco importava como a via era feita, já que
escaladas eram encaradas como simples itinerários
na rocha a serem vencidos com o auxílio de todos
os recursos disponíveis.
Novas técnicas foram então criadas e introduzidas
em nosso meio, e o equipamento à disposição
do escalador foi de tal forma aperfeiçoado que
muito cedo chegou-se ao ponto em que, literalmente,
qualquer via poderia ser conquistada, mesmo por cordadas
sem o menor preparo para tal, através de artificiais
fixos. A habilidade cedia lugar à diligência,
a criatividade à repetição, a coragem
à tecnologia, e a vitória final sobre
a escalada tornava-se, assim, um fato inevitável.
Além disso, muitas dessas conquistas eram coletivas,
ou seja, aquelas nas quais o sentimento maior de descoberta
e criação de uma nova via é substituído
por um trabalho de grupo que, embora gratificante sob
certos aspectos, reduz o escalador de condição
de um verdadeiro artista para a de simples operário.
Resulta daí que a montanha terá que ceder,
necessariamente, diante de um assalto que conte com
tantos esforços alocados de forma sistemática.
Isso rouba da escalada em rocha o sabor de aventura
e a incerteza do resultado, sensações
próprias de ascensões executadas com meios
limitados e que, certamente, são dois de seus
maiores atrativos. A experiência única
que é a abertura de um novo traçado por
uma cordada pioneira cede lugar a um avançar
repetitivo, quase monótono, com o uso maciço
de recursos materiais e humanos visando apenas completar
a via, e não extrair dela experiências
enriquecedoras.
Para salvar o esporte, enquanto esporte, de uma estagnação
total, impunha-se que a comunidade local de escaladores
resolvesse, voluntariamente, limitar os meios empregados
em conquistas e ascensões subseqüentes.
Tal atitude era inclusive urgente, pois o Rio de Janeiro
e seus arredores já haviam sido severamente castigados
com milhares de grampos absolutamente desnecessários.
Estes desfiguram por completo o caráter natural
das paredes rochosas e constituem-se, em termos ecológicos,
em uma forma de poluição estética
tão indesejável quanto o lixo que por
vezes vemos espalhado ao longo de trilhas, acampamentos
e mesmo amontoado na base de certas escaladas.
De fato, ao longo do tempo foram surgindo escaladores
para os quais subir simplesmente uma parede passou a
representar muito pouco, e que viam escaladas não
como um mero itinerário na rocha, mas como uma
íntima união deste com o estilo empregado
durante a sua conquista e mesmo em ascensões
posteriores. Para eles, grampos eram apenas o último
(e não o único) recurso a ser usado, e
escaladas deveriam ser tentadas o mais em livre possível,
ou seja, sem se utilizar dos artefatos de segurança
para apoio e progressão, devolvendo-lhes o seu
caráter original de proteção no
caso de uma eventual queda. Se uma escalada lhes parecesse
acima de suas capacidades, treinavam para fazê-la
corretamente ou então desistiam da empreitada,
respeitando os limites impostos pela montanha.
Um dos mais remotos e brilhantes exemplos dessa nova
mentalidade foi a conquista da Face Leste do Dedo de
Deus, em 1944 – e portanto em plena era do cabo
de aço –, por três associados do
Centro Excursionista Brasileiro, sem o uso de um grampo
sequer. O CEB foi o pioneiro e desde então, até
há poucos anos atrás, essa linda escalada
pôde ser desfrutada em seu estado original por
centenas, talvez milhares, de escaladores.
Exemplos como esse, de escaladas naturais, se multiplicaram
ao longo dos anos, mas como a toda ação
corresponde uma reação, logo se levantaram
algumas vozes e críticas contra esse processo,
que começava em nosso país já com
considerável atraso em relação
aos demais locais no mundo onde o esporte era praticado
com seriedade. Essas críticas partiam de indivíduos
ou grupos inconformados com o progresso e a evolução
da escalada em rocha em nosso país, por razões
para mim obscuras, mas eram a princípio discretas,
já que não foi senão muito lentamente
que o conceito de "escalada limpa" foi se
estabelecendo em nosso meio e, portanto, não
se constituía ainda em ameaça maior ao
arcaico status quo vigente.
Ocorre que o número de adeptos do purismo em
nosso esporte cresceu consideravelmente em número
e habilidade, graças à natural evolução
que acompanha o desenvolvimento de qualquer atividade,
e sua capacidade técnica foi em muito ampliada
devido à determinação de se explorar
novos limites de dificuldade com uma auto-imposta redução
de meios.
Dentro desse espírito, notáveis conquistas
foram realizadas; afinal, a escalada em livre pode ser
comparada a uma dança de rara elegância
executada em um cenário vertical, e certamente
é uma das mais belas e gratificantes formas de
expressão do corpo humano em movimento. Nela,
cada parte do corpo, assim como os sentidos e as emoções,
são convocados a cada instante a terem um desempenho
preciso para que se possa vencer o obstáculo
proposto. Além disso, se a competição
em nível interpessoal e intergrupal é
um elemento inteiramente estranho e condenável
em nosso esporte, pode haver uma competição
velada do escalador com ele mesmo, no sentido de estabelecer
os seus próprios limites e, se possível,
alargá-los.
Para isso, por vezes, é necessário um
grande treino e dedicação, como de resto
em qualquer outra atividade humana. Mas que mal há
nisso? A esse respeito, seria interessante ouvirmos
o parágrafo final do editorial da revista inglesa
Mountain, em sua edição de janeiro/fevereiro
deste ano (1983): "Não devemos nos preocupar
quando os escaladores se tornam mais atléticos
e usam sua própria força para conquistar
a montanha, mas sim quando abusam no uso de artifícios
para reduzir a montanha ao seu próprio nível.
A reabertura aos olhos do mundo ao longo dos dez últimos
anos da noção de escalada em livre pura
pôde assegurar a continuidade da saúde
do esporte".
Aliás, o nivelamento por baixo do esporte parece
ser o objetivo dos mais exaltados opositores de seu
progresso nos dias atuais, gente que em plena década
de 80 ainda conquista com cabos de aço, escadas
de madeira, artificiais fixos inúteis etc., e
que altera profunda e irreversivelmente as características
originais de ótimas vias criadas no passado e
assim repetidas por anos – ou décadas-,
freqüentemente sem comunicar o fato aos conquistadores.
Estas pessoas acusam a nova geração e
seus feitos como obra de acrobatas e elitistas. Acrobatas
porque muitos escaladores de hoje sentem prazer em enfrentar
obstáculos muito acima dos acanhados limites
que a estreita visão daqueles permite enxergar.
E elitistas porque, em sua determinação
de desenvolvimento, encaram e tentam dominar os seus
próprios medos, e porque têm a suprema
coragem de admitir a derrota frente às dificuldades
naturais, sem recorrer a marretadas como uma solução
rápida e fácil para os problemas que se
apresentem.
Diz-se também que não está havendo
respeito pelas tradições do Montanhismo,
e que as atividades dos escaladores de hoje são
conflitantes com o espírito dos clubes, dos quais
se estaria tentando, inclusive, subverter a ordem normal.
Nada mais falso. Os clubes sempre foram o principal
centro de prática e difusão do esporte
em nosso país, e seu papel é insubstituível
nesse aspecto. Aqueles que se modernizam nada têm
a temer; pelo contrário, só têm
a lucrar com a efervescência que a introdução
de novas idéias, técnicas e equipamentos
trazem. Além disso, tradições só
fazem sentido quando não interferem com o progresso,
pois se não ainda estaríamos escalando
com cordas de sisal na cintura e botas cardadas, a ainda
seriam exigidos ao novato dois anos de experiência
comprovada para participar de uma simples ascensão
à Agulha do Diabo.
Os clubes devem ser fortalecidos, desde que não
se desviem de sua finalidade original: ponto de encontro
de montanhistas, centro de divulgação
e estímulo à prática do esporte
e arquivo da memória excursionista. Quando um
clube passa a dar maior importância à sua
vida social do que ao Montanhismo em si incorre em grave
distorção, que fere o próprio ideal
que motivou a sua criação.
Finalmente, a última crítica que pesa
sobre os defensores das escaladas naturais a merecer
consideração é a que diz respeito
às vias por eles criadas, que seriam perigosas,
inseguras, e que se estaria tentando torná-las
propositalmente difíceis e inacessíveis
ao escalador comum. Nota-se aí, novamente, o
conceito de elitismo sendo usado como arma improvisada
para suprir a falta de argumentos mais consistentes
sobre o assunto, e para disfarçar sentimentos
inconfessáveis.
Um exemplo concreto de que qualidade não é
sinônimo de dificuldade novamente pôde nos
ser dado por associados do CEB, ao conquistarem recentemente
duas pequenas e fáceis escaladas de 2o grau no
Rio de Janeiro, os Paredões São Pedro
e Yosemite. Ambas são vias que, apesar de clássicas
em sua concepção, foram conquistadas dentro
de um estilo impecável, ou seja, inteiramente
em livre e com grampos em número suficiente para
torná-las seguras, e nada mais.
É evidente que sempre poderá haver alguma
discordância quanto ao tamanho de alguns lances,
mas tais discussões devem ser levadas a termo
civilizadamente sob o signo do bom-senso, e há
de se respeitar, em última instância, a
concepção original dos conquistadores.
De qualquer forma, a questão poderia ser resumida
nas palavras de um alpinista austríaco (Reinhold
Messner), comentando a respeito dos que insistem em
reduzir a dificuldade da montanha por meio de artifícios:
"Esses escaladores carregam a sua coragem na mochila".
Quanto à proteção móvel
– ou natural, já que não danifica
a rocha –, tal como nuts, friends, bicos de pedra,
afirmo que ela é absolutamente segura quando
corretamente empregada, e seu uso é a regra,
e não a exceção, em todo o mundo.
Há quem diga que nuts não deveriam ser
usados, pois nem todos sabem lidar com eles ou mesmo
não os possuem. Ora, qualquer técnica
só pode ser posta em prática se houver
um aprendizado prévio, e o uso de nuts, como
qualquer outra em escalada, deve ter o seu ensino difundido
para todos. Bater grampos ao lado de boas fendas, visando
torná-las acessíveis para todos, seria
como se o Comitê Organizador das Corridas de Fórmula
I franqueasse suas provas a carros de passeio, para
que todos nelas pudessem tomar parte. As únicas
diferenças correm por conta da natureza competitiva
daquele esporte, estranha ao Montanhismo, e pelo fato
de que qualquer um com vontade e disposição
reais pode repetir as vias em nuts.
E quanto à alegação de que poucos
possuem jogos de nuts, esta é improcedente, pois
já vai longe o tempo em que estes eram uma raridade,
e atualmente já existem até alguns de
fabricação nacional, e todos sabemos com
obtê-los.
Para concluir, gostaria de lembrar a todos os montanhistas
presentes, mas especialmente aos mais novos que, no
momento atual, estamos diante de uma encruzilhada que
decidirá qual o futuro de nosso esporte. Está
em jogo o nosso maior patrimônio, ou seja, o conjunto
de paredes rochosas que nos circundam, e que serão
legadas àqueles que nos sucederem.
Cabe então a cada um, com base nesses fatos que
saltam aos olhos de quem quiser vê-los, escolher
o seu caminho. Pode ser o caminho fácil que conduz
ao passado, o da despreocupação com estilo
e com a integridade física e estética
da rocha, onde qualquer dificuldade pode ser imediatamente
substituída por um grampo; ou pode ser o caminho
muito mais árduo e exigente da escalada natural,
onde dedicação – por vezes obstinação
– e firmeza de propósitos são requisitos
indispensáveis. Um caminho onde insucessos são
mais freqüentes, mas que por outro lado, e por
este mesmo motivo, as recompensas interiores de uma
vitória são incomparavelmente maiores,
já que derivam de um encontro justo com a montanha.
Se esse rumo for o escolhido por todos, então
poderemos afirmar com segurança que a escalada
em rocha no Brasil irá ocupar, em breve, o lugar
de destaque que merece, tanto dentro quanto fora de
nossas fronteiras.
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