Lendas Cariocas
por: Kika Bradford
Quem não
tem seus hábitos ao escalar? Quanto mais escalo,
mais descubro que cada um tem suas preferências
e manias durante a escalada. Essas manias são
influenciadas pelo local onde você aprendeu a
escalar, por seus instrutores e parceiros, pelo tipo
de escalada em que você se especializa, etc.
Eu, por exemplo, comecei a escalar no Rio, mas depois
de 6 meses de escalada, me mudei para os EUA. Foi nesse
outro país que adquiri experiência e escalei
a maior parte da minha vida de escaladora. Meus conhecimentos
de escalada, bem como minhas manias, foram criados numa
dualidade de tradições brasileiras e americanas.
Misturei um pouco das duas e criei minhas manias.
Quando voltei para o Rio, me deparei com muitas manias
sendo utilizadas quase como verdades absolutas, como
se fossem as únicas e melhores opções
que existem em escalada, se tornando quase que lendas.
Não que sejam erradas ou inseguras, mas muitas
dessas manias, que chamo aqui de lendas, podem, e algumas
vezes devem, ser substituídas por outras possibilidades.
A questão principal é que essas "lendas"
são, muitas vezes, utilizadas e difundidas sem
uma reflexão sobre suas implicâncias, limitações,
e até seguridade das mesmas. Não há
uma pesquisa (teórica ou prática) sobre
outras opções para realizar o mesmo procedimento;
e essas lendas são simplesmente absorvidas pela
comunidade de escaladores. O que questiono aqui é
muito mais a aceitação não crítica
de procedimentos de segurança e outras crenças
do que as lendas em si.
Não quero que o que eu diga aqui seja simplesmente
tomado como verdade. As minhas observações
são frutos das minhas escaladas e, conseqüentemente,
de minhas manias e opiniões pessoais. Além
disso, esse artigo trata-se de uma generalização
que certamente tem exceções.
Para esse artigo, usei o Rio de Janeiro nas minhas observações,
uma vez que moro e escalo a maior parte do tempo nessa
cidade. Porém, isso não implica que as
questões levantadas aqui se apliquem somente
ao Rio. Pelo contrário, apesar de eu não
poder generalizar para todo o Brasil, acredito que algumas
dessas lendas sejam difundidas em vários outros
locais.
"Enton" vamos lá para nossas lendas
cariocas...
1. Magic X é o único
ou o melhor tipo de equalização que existe
Todos meus parceiros de escalada daqui do Rio usaram
e usam o magic x como equalização. Muitos
desses parceiros não tinham ou ainda não
têm conhecimento de outro tipo de equalização.
Inclusive no meu curso de guia, aqui no Brasil, esse
foi o único tipo ensinado. O magic x, assim como
todo procedimento, tem seus prós e contras que
devem ser avaliados e não simplesmente usados
como "verdades".
O magic x é uma equalização rápida
de se fazer e tem a propriedade de deixar a parada equalizada
para várias direções. Porém,
quantas vias realmente requerem que essa propriedade
seja utilizada? Não são muitas... Além
disso, essa equalização tem um ponto negativo
extremamente importante: se um dos pontos de ancoragem
falhar, haverá uma extensão dessa equalização,
causando um enorme impacto no(s) outro(s) ponto(s) de
proteção.
Então, o que será melhor: fazer essa equalização
ou se ancorar em dois pontos diferentes separadamente?
No caso da segunda opção, se uma das proteções
saírem, não haverá impacto na(s)
outra(s), sendo assim mais recomendada em algumas situações.
Porém, o peso não será distribuído
como em uma equalização.
Um tipo de equalização tão rápida
e simples quanto o magic x é a com um nó.
Passa-se um cordelete (uns 3 a 4 metros de diâmetro
já com as pontas unidas) pelas proteções
e faz um nó no meio unindo todas as partes/pontas
desse cordelete. Certamente, se sua ancoragem não
for muito boa, essa é a melhor opção,
uma vez que não permite a extensão que
o magic x ocasiona. Porém, essa equalização
não é multi-direcional e tem que ter cuidado
para puxar as pontas do cordelete de maneira uniforme
e fazer o nó na direção do peso
e possível impacto.
No caso do Rio de Janeiro, onde a maioria das vias tem
paradas grampeadas, o tipo de equalização
a ser usada é bem subjetiva, cabendo ao guia
a decisão de fazer o magic x, simplesmente se
ancorar sem equalizações ou usar outro
tipo de equalização sem expor ninguém
a risco desnecessário. Porém, outras situações
podem pedir um tipo específico de equalização,
que pode ou não ser o magic x, e não queremos
nos expor só porque acreditamos que o magic x
pode e deve ser usado em todas as situações.
E definitivamente não queremos escalar só
no Rio e em vias com paradas fixas, não é?
O aprendizado e a utilização de outros
tipos de equalização que não o
magic x é muito importante e essencial.
2. Dar segurança para o segundo só
de Gri-gri ou UIAA
Os escaladores do Rio são tão viciados
em gri-gri ou no UIAA para dar segurança para
o participante que já vi pessoas que não
sabiam fazer de outra forma, apesar de darem segurança
para o guia com outro tipo de aparelho de segurança.
O UIAA é um ótimo nó de se ter
gravado na mente. No caso de você perder todo
seu material e sobrar só um mosquetão
de rosca (situação inusitada...), você
tem como sair da parede sem precisar fazer um rapel
de corpo. Porém, se esse não for o caso,
esse nó não é uma boa opção
uma vez que torce muito a corda e, portanto, não
é bom para a vida útil da mesma e para
a escalada em si. A corda fica toda torcida numa das
pontas e pode ser difícil de dar segurança
(e de rapelar), sendo quase que obrigatório o
desencordamento de um escalador para destorcer a corda.
Apesar disso, é um nó amplamente difundido
nas montanhas do Rio, uma vez que é extremamente
confortável dar segurança para o participante
diretamente da ancoragem.
O gri-gri, famoso (lendário) gri-gri, é
uma boa opção. Não é a minha,
mas é uma boa opção. O gri-gri
dá uma agilidade e conforto enorme para o guia
dar segurança para o participante. Porém,
o gri-gri é pesado e geralmente só é
usado para a segurança do participante. A maioria
das pessoas que carrega um gri-gri na escalada não
dá segurança para o guia com ele e muito
menos rapela usando esse equipamento. Então,
vamos escalar uma via e carregar o gri-gri somente para
isso? Não seria melhor economizar no peso? Tudo
bem que o gri-gri pode servir como uma polia improvisada,
mas nada que prussiks, o próprio ATC e de repente
uma polia ultra-light não resolvam. Além
disso, o gri-gri é um aparelho que deixa alguns
escaladores preguiçosos e mal acostumados...
Isso me leva à próxima lenda, que é
potencialmente a mais perigosa de todas.
3. Gri-gri sempre trava automaticamente
Quem já não escutou e simplesmente confiou
no fato do gri-gri travar automaticamente? Eu já...
Eis a questão: ele NÃO (necessariamente)
travará automaticamente! Quando o gri-gri é
usado para dar segurança para o participante,
se você não está com a mão
na corda, essa mesma pode correr criando uma "barriga"
na corda do participante. Ao dar segurança em
'top rope', se o escalador cai sem criar um impacto
grande e o assegurador não está com a
mão na corda, o gri-gri pode não travar
imediatamente, o que pode levar a uma queda de base
em certos casos. E é claro tem aquela possibilidade
de você tê-lo montado ao contrário
e sem a mão na corda ele não travará
de jeito nenhum...
Os escaladores que ficam mais em falésias do
que em parede tendem a usar e acreditar nos poderes
lendários do gri-gri mais cegamente. Tão
cegamente que muitas vezes nem se dão ao trabalho
de aprender ou ensinar a dar segurança direito.
Outro dia eu estava na Fissura São João
(na Chacrinha, Rio) e tinha um cara escalando uma das
vias esportivas ali do lado. A pessoa que estava dando
segurança não tinha noção
de como fazê-lo. Como eu sei? Simples... Antes
de começar a subir, o escalador trocou meia dúzia
de palavras sobre o gri-gri... e aí quando chegou
na ancoragem (lá no alto...), ele começou
a explicar para a asseguradora como fazer para liberar
a corda do gri-gri, para depois recolocá-lo na
corda para enfim começar a descê-lo de
baldinho, que aliás, não é nada
fácil (com o gri-gri) para quem não sabe
dar segurança. A crença de que se ele
caísse, o gri-gri, e não o assegurador,
iria travá-lo estava mais do que presente. Tão
presente, que ele nem se deu o trabalho de explicar
como realmente se trava um escalador em queda. Não
foi a primeira e acredito que nem será a última
vez que presencio uma barbaridade dessa. Aliás,
descer alguém de baldinho com o gri-gri é
outra coisa que não é necessariamente
fácil de se fazer. Num caso como esse, o assegurador
pode simplesmente não manipular o equipamento
direito e deixar o escalador cair.
Outro problema é quando um iniciante está
dando segurança com o gri-gri e o escalador cai.
Uma reação possível é o
assegurador tentar travar a queda apertando o equipamento...
Opa! Será que não seria possível
que esse assegurador empurrasse para baixo o mecanismo
do gri-gri que teoricamente iria parar a queda?
Outra coisa que o gri-gri proporciona é a preguiça
(fruto também da lenda da "automaticidade").
Preguiça de dar segurança, de prestar
atenção no escalador, de ficar com a mão
na segurança (!!!)...Isso ocorre, geralmente,
em falésias e quando alguns desses escaladores
(treinados e mal-acostumados com o gri-gri) eventualmente
vão se aventurar na parede, de repente usando
um outro tipo de equipamento de segurança, como
o 8 ou ATC, pode vir a ocorrer um erro básico.
Pela força do hábito e da lenda, vão
tirar a mão do freio ocasionalmente, fato que
já é errado com o gri-gri e pior ainda
com outros equipamentos, quando maiores possibilidades
de acidentes podem vir a ocorrer. Já vi isso
acontecendo algumas vezes...
4. Capacete: só para conquistas,
vias em móvel, ou montanhas
Existe uma lenda que capacete é desnecessário
em vias na Urca ou outros locais no Rio de Janeiro.
Essa lenda diz que capacetes só são imprescindíveis
para vias em móvel, conquista ou para vias nas
montanhas (Serra dos Órgãos, Salinas,
etc.) (se muito). Como se um escalador não fosse
cair na Urca ou uma pedra não fosse se soltar.
Capacete já me salvou de uma boa. Eu estava escalando
tranqüilamente, crente que não ia cair...
de repente, pum.... corda do lado errado, virei de cabeça
para baixo e bati a cabeça na pedra. Por sorte,
estava de capacete e nada aconteceu. Você não
escolhe onde e como cair; pode acontecer em Salinas,
numa conquista, ou naquela via de 3o que você
já fez 5 vezes na Urca. Quando você vê,
já está voando... e não é
durante esse vôo que você tem que se tocar
que precisa de capacete.
O capacete não só protege em caso de queda,
mas também de objetos caindo. A Babilônia,
no Rio, é um campo escola extremamente utilizado.
Escaladores (principalmente iniciantes) deixam material
cair. Além disso, agarras se soltam e pedras
caem, até em paredes extremamente populares,
como a Babilônia ou o Pão de Açúcar!
Outro dia (em julho de 2003) estava puxando a corda
no último rapel da Ricardo Prado e adivinhem
só?! Uma pedra veio com ela e passou pertinho
da gente. E isso numa das vias mais freqüentadas
do Rio de Janeiro. Em outro episódio, um amigo
estava guiando o Cavalo Louco e uma agarra quebrou passando
muito perto de mim. Agarras quebram sempre em todos
lugares: no Dedo de Deus, Baú, Garrafão,
Yosemite, e até na Urca.
Moral da história: usem o capacete! Acabem com
essa lenda!
5. Falésias: ótimo local para
aprender a escalar
Algumas das lendas mais difundidas no Rio (e em outros
estados também) são provenientes da filosofia
de falésias, ou melhor, do fato de pessoas aprenderem
a escalar em falésias. Escaladas desafiadoras
(por um certo ponto de vista) e de fácil acesso
atraem os escaladores, que querem ensinar a seus amigos,
namoradas, e parentes. E são justamente nesses
ambientes que alguns escaladores aprendem a manipular
alguns equipamentos. E aí aprendem a dar segurança
de gri-gri, a só usar o lais de guia, a não
usar o capacete, a não se encordar enquanto o
outro escala (e nem dar nó na ponta oposta a
do escalador), a achar que grampo é o melhor,
e de repente o único, tipo de proteção
que existe, e que experiência em escalada é
igual a escalar 8o 9o e 10o graus. Aliás, uma
pessoa que conheço que começou em falésia
não sabia se encordar com o 8 depois de 1 ano
escalando...
Outro problema é que alguns escaladores depois
de 1 ou 2 anos de escalada em falésia já
se acham experientes o suficiente para dar aulas de
escalada. Provavelmente, esses falesistas escalam graus
mais altos do que muitos escaladores e instrutores de
escaladas (como eu). Porém, experiência
não é sinônimo de escalar graus
altos e ensinar a escalar é muito mais do que
ensinar a subir paredes de rocha... Como diz o Flávio
Doce: "escalar uma via difícil é
a parte mais fácil da escalada. O difícil
é escalar vias, fáceis ou difíceis,
seguindo as normas de segurança. Escalar bem
é escalar sempre." E alguns escaladores
que iniciam em falésias ignoram boa parte das
normas básicas de segurança. Fazer um
curso com profissionais é essencial para aprender
a escalar com segurança.
6. 5.10 é a melhor sola do mundo
Quando cheguei ao Brasil vendi uma sapatilha que eu
tinha ressolada. A primeira pergunta que me fizeram
era se a ressola era 5-10. Não tinha noção
e não entendi muito o porque da pergunta. Na
verdade nunca tinha pensado em diferentes solados. Mas
aí o tempo foi passando aqui no Rio e fui sendo
informada da lenda de que a sola 5-10 é a melhor
que tem. Eu particularmente nunca senti diferença
no solado das botas que tive (Scarpa, La Sportiva e
5-10) e as ressolas sempre foram feitas com as solas
mais baratas e adequadas para a sapatilha, o que era
decidido pelo próprio ressolador.
Resolvi dar uma olhada mais a fundo... e a minha opinião
é de que essa lenda é provavelmente a
que se tornou mais verdade de todas. E, na minha opinião,
essa lenda é lenda mesmo. Existem pessoas que
compram uma sapatilha nova e, por não ser 5-10,
a colocam diretamente para ressolar com o solado lendário,
sem nem usá-las antes para testar. Será
que o solado faz tanta diferença assim? Será
que não é a forma da bota que faz a diferença?
Um argumento em favor do que eu estou falando: o Fabiano
(ressolas) uma vez ressolou a botinha de um escalador
experiente (com a permissão dele) com a sola
5-10 em um pé e Vibram no outro. O escalador
não sentiu diferença e não soube
dizer qual era qual... Depois de um tempo nem o próprio
Fabiano conseguia distinguir as duas... 5-10 é
uma ótima sola, mas não é tão
diferente assim da Vibram, na minha opinião.
Agora, o psicológico das pessoas influencia bastante
também e fazem com que a sola 5-10 se torne uma
mestre em escaladas.
7. Rio de Janeiro não tem escalada
em móvel
Existe uma lenda de que não existem escaladas
em móvel no Rio. Tudo bem que na cidade há
um predomínio de grampos (até em fendas,
infelizmente) e não há muita fenda contínua
da base ao cume. Porém, existem várias
vias (e não só em Guaratiba ) que requerem
móvel ou podem ser feitas em móvel em
parte de seu trajeto. Alguns exemplos na Urca: Diedro
Pégasus, variante do Waldo, Cavalo Louco, Galloti
e Lagartão; na Pedra da Gávea: Vapores
da Gávea, Aquarius e C-100; Tijuca Mirim: Jair
Juana e Primus; Agulinha da Gávea: Olimpo; entre
outras. As vias estão aí para serem escaladas...
é só a gente querer.
..................................
Essas lendas estão muito difundidas pelo Rio
e algumas delas chegam a apresentar perigo direto para
os escaladores, enquanto que outras são lendas
mesmo. Apesar desse artigo usar o Rio de Janeiro como
parâmetro, muitos das questões envolvidas
nessas lendas podem ser usadas e assimiladas (criticamente)
em outras partes do Brasil.
Talvez chamar isso de lenda não tenha sido a
melhor escolha. Mas tudo bem, espero ter passado o que
eu queria: o fato de que escalar vai além de
subir pedra e repetir os passos dos outros. Temos que
estar sempre pensando nos procedimentos usados, analisando-os
e refletindo para ver se esses são nossas melhores
opções ou opções seguras
durante a escalada. Livros nos ajudam a entender um
pouco mais dos procedimentos, mas obviamente não
adianta apenas ler livros e não escalar. Fazer
um curso com pessoas experientes é essencial...
e escalar, escalar, e escalar... conscientemente. Boas
escaladas por aí...
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*Texto publicado na Revista Universo Vertical, edição
09.
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