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Breve História do Montanhismo
por: Kika Bradford


Desde os primórdios, o homem escala montanhas, seja por motivos míticos, religiosos, militares, exploratórios, ou puramente por diversão. A maioria dessas ascensões não deixou registros e poucos são os historiadores e arqueólogos que se interessam por esse assunto. Porém, alguns registros salvaram-se, como a subida do Monte Etna, na Sicília, em 126 dC, pelo imperador Adriano, e do monte Ventoux, na França, em 1336, pelos irmãos Geraldo e Francesco Petrarca.

Entretanto,diz-se que a escalada como hobby começou nos Alpes, na Europa, e ganhou força a partir do século XIX. No século XVIII, porém, um fato isolado marcou a história do alpinismo mundial: a conquista do Mont Blanc (4.807 m) pelos franceses Michel Paccard e Jaques Balmat. Nessa época, as ascensões das montanhas tinham um caráter científico e exploratório, e o interesse pela fauna, flora e outras características dos ambientes alpinos era maior do que o interesse pela escalada em si.

No século seguinte, os Alpes, os Andes (incluindo o Aconcágua), e picos ao redor do mundo, começaram a ser explorados e a escalada começou a adquirir um caráter de diversão. No século XX, a escalada se tornou mais técnica e o desenvolvimento de equipamentos cada vez mais especializados possibilitou a conquista de montanhas até então intransponíveis. O Everest, por exemplo, foi conquistado em 1953 pelo neozelandês Edmund Hillary e o sherpa Tensing Norkay, enquanto que em Yosemite (EUA), escaladores conquistavam vias em livre e em artificial.

No Brasil, o século XIX conta com vários feitos na escalada, como por exemplo, a subida do Marumbi (PR), Pão de Açúcar, em 1817, Pedra da Gávea, em 1828, Pedra do Sino, em 1841, e Agulhas Negras, em 1856 (todos no Rio de Janeiro).

O marco mais significante da escalada brasileira é a subida do Dedo de Deus (RJ), em 1912, pelos teresopolitanos José Teixeira Guimarães, Raul Carneiro e os irmãos Acácio, Alexandre e Américo Oliveira. Antes desse feito, porém,, o Dedo havia sido considerado impossível de ser escalado por alpinistas renomados estrangeiros. Instigados pelo desafio, os teresopolitanos levaram 7 dias para conquistar essa montanha, levando consigo materiais fabricados por eles mesmos, cordas de sisal, e muita coragem. Depois desse feito, os escaladores foram recebidos como heróis em Teresópolis. A via por qual eles atingiram o cume é, até hoje, uma importante e clássica via de acesso ao cume (a via Teixeira).

No início do século XX, clubes de excursinismo foram sendo estabelecidos, como o CEB (Centro Excursionista Brasileiro), em 1919, o CERJ (Centro Excursionista Rio de Janeiro), em 1939, e o CEC (Clube Excursionista Carioca), em 1946. Era uma época de disputa entre clubes e muitas vias e muitos cumes foram conquistados a partir da década de 40 no Brasil. Vários escaladores (Rodolfo Chermont, Ricardo Menescal, Domingos Giobbi, Patrick White, Sílvio Mendes, Salomith Fernandes, etc) foram responsáveis pelo desenvolvimento da escalada no Brasil nessa época. Os equipamentos dessa época eram compostos por cordas de sisal, bota cordada para chaminés e meião de lã para lances em aderências, que eram escaladas sem as botas! A corda era amarrada em volta da cintura para formar uma cadeirinha (ou baudrier), o rapel e a segurança eram feitos usando o próprio corpo do escalador para criar o atrito, as vias eram conquistadas usando vigas de madeira, marretas, grampos, etc.

Foi justamente nessa década, que os irmãos Antônio e João Cortez conquistaram a Pedra do Baú, em São Paulo e construíram o primeiro abrigo de montanha do Brasil, no cume dessa montanha. Enquanto isso, no Rio, as escaladas eram mais restritas às chaminés, uma vez que havia uma limitação de equipamentos especializados para outros estilos. A chaminé Stop (no Pão de Açúcar) e a Face Leste do Dedo de Deus foram conquistadas usando proteções naturais (árvores e pedras entaladas) e um mínimo de grampos. Silvio Mendes fez uma série de conquistas importantes, como o Pico do Itabira (ES) que foi por muito tempo considerada a via mais difícil do Brasil, a chaminé Rio de Janeiro, no Corcovado (face sul), e a via Silvio Mendes, no Pico Maior de Salinas (RJ).

Além das chaminés, outros tipos de vias foram abertas: as vias com cabo de aço. Para a conquista dessas vias, os escaladores usavam troncos de árvore ou escadas de ferro que eram presos nos grampos já batidos para que o escalador pudesse subir por eles e assim bater outro grampo no topo da escada ou tronco. A partir desse grampo, um cabo de aço era fixado, o que permitia a subida dos escaladores. Apesar dessa técnica consumir muito tempo e trabalho, muitas vias foram abertas, como a Chaminé Gallotti, o CEPI e o Secundo Costa Neto (todas no Pão de Açúcar, Rio).

Na década de 60, a chegada de equipamentos mais especializados (como a corda de náilon e as botas com sola de sisal – chamadas de 'china-pau') permitiu que conquistas fossem feitas sem o uso de cabos de aço, mas com pítons e cunhas de madeira. Em Minas, o CEBH era formado e as montanhas daquele estado começaram a ser mais exploradas (por ex. Itacolomi e Itabirito), enquanto que no Rio, os cabos de aço foram sendo controversialmente e gradualmente removidos. Hoje em dia, uma discussão semelhante ocorre, com a retirada (ou não) de grampos colocados perto de fendas, onde já podem ser utilizados equipamentos móveis para a proteção das mesmas.

A década seguinte conta com uma série de conquistas. A "guerra" entre os clubes continuava, e uma conquista por parte de um clube era sempre respondida com uma outra conquista por parte do outro. Foi nessa década que o a face sul do Morro da Urca e a face norte da Babilônia foram exploradas e algumas das vias que formam a parede dos Coloridos e da Babilônia foram abertas. Rodolfo Chermont despontou nessa época como exímio escalador e conquistou várias vias consideradas difíceis até hoje (como a Patrick White, no Irmão Maior do Leblon, a via Foca, no Espírito Santo, etc). No final dessa década, surgiram os nuts (proteções móveis) que foram usados na conquista de vias, como a Fissura Tropical e, além disso, vias em artificial começaram a ser conquistadas (como no setor dos Tetos no Pão de Açúcar).

Nos anos 80, muitas inovações aconteceram, como a introdução no Brasil de um calçado especial para escalada, cordas de náilon dinâmicas, material móvel, etc. Vias com graduação alta (Cisco Kid, Pássaros de Fogo, etc) foram conquistadas na Serra do Lenheiro, MG e na Urca por escaladores como André Ilha, Sérgio Tartari, Alexandre Portela, entre outros. Em 1983, o I Encontro Brasileiro de Montanhismo foi realizado na sede do Parque Nacional Serra dos Órgãos, onde André Ilha apresentou um texto ainda muito atual chamado "Manifesto da Escalda Natural", onde ele repudia o uso de grampos perto de fendas e fissuras, entre outras coisas.

A escalada esportiva também crescia e com ela os graus das vias aumentavam para 8o ou 9o. Paulo Macaco foi um destaque desta época nessa modalidade. A escalada em solo também atraiu escaladores da época, como Alexandre Portela e Sérgio Tartari, que entre outras solaram a Italianos e o Lagartão de kichute ou conga (muito usados como botas de escalada).

A década de 90 trouxe consigo a febre das escaladas esportivas, já iniciada na década anterior. Locais como Campo Escola 2000 (na Floresta da Tijuca, RJ) e a Serra do Cipó (MG) foram (e ainda são) destaques nessa modalidade. Escaladas tradicionais foram retomadas com mais força e a escalada em móvel está cada vez mais recebendo adeptos no Brasil.
O número de escaladores independentes (que não fazem parte de clubes) aumentou, bem como o número de mulheres escaladoras. Em 1996, com o intuito de organizar o esporte, a Interclubes foi formada e em 2000, esta se "transformou" na FEMERJ (Federação de Esportes de Montanha do Rio de Janeiro). Ainda com o intuito de organização e profissionalização do esporte, em 2001 foi fundada a AGUIPERJ, Associação de Guias, Instrutores, e Profissionais de Escalada do Estado do Rio de Janeiro.

A FEMERJ vem sendo responsável por uma série de eventos, códigos, e esforços para uma maior profissionalização, organização e divulgação da escalada no Rio. A criação de uma série de grupos de trabalhos (como o GT da Urca, de mínimos impactos em paredes, etc) dentro da FEMERJ foi essencial para melhor atender às necessidades da comunidade. Dentre outros eventos, cabe-se citar o Seminário de Mínimo Impacto em Paredes, realizado em 2002.
Texto escrito por Kika para a apostila do curso básico de escalada.

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