Escalada Alpina
nos Tetons, EUA
por: Kika Bradford
Quem ainda não ouviu falar das grande paredes
de Yosemite? Como grande destino de escaladores do mundo
todo, Yosemite é bem conhecido no nosso meio.
Porém, outros destinos são bem menos conhecidos.
No Brasil, poucas pessoas ouviram falar do Grand Teton
National Park, em Jackson, Wyoming. Os Tetons não
possuem paredes tão grandes quanto Yosemite,
porém são considerados um dos melhores,
senão o melhor, locais de escalada alpina dos
states, que envolvem vários km de aproximação,
elevadas altitudes e muita experiência em achar
vias.
A cadeia dos Tetons é composta por várias
montanhas, das quais as mais famosas são o Middle
Teton, Teewinot, Mount Owen, Nez Perce, Mount Moran,
e é claro, o Grand Teton. Os Tetons se erguem
abruptamente do vale de Jackson Hole, chegando a mais
ou menos 4500m. no cume do Grand Teton. Todos os picos
podem ser escalados em um dia, mas a maioria das pessoas
levam 2 dias, sendo um para a aproximação
e o outro para a escalada e descida. As rochas são
de formação cristalinas e graníticas,
possuindo inúmeras fendas, diedros, e chaminés,
que permitem escaladas no estilo tradicional.
As primeiras conquistas dos picos começaram no
final do século XIX, com a ascenção
de Owen e Spalding ao cume do Grand Teton, e a conquista
de uma das vias mais clássicas e escaladas no
parque, a via Owen-Spalding (5.4). Na década
de 20 e 30, Paul Pretzoldt, Fritiof Fryxell, Glenn Exum,
Robert Underhill, Jack Durrance, entre outros, fizeram
várias importantes conquistas, como a Koven Route
(5.4), no Mount Owen, North Face (5.8), e a parte de
baixo da Exum Ridge (5.8) no Grand Teton, entre outras
vias e montanhas. Na década de 1940 a 1960, o
foco mudou de vias de alta montanha para escalada em
rocha em si. Várias vias clássicas foram
conquistadas, como The Snaz, em Death Canyon (5.10a),
Serendipity Arete, no Mount Owen (5.9) e South Buttress
Right, no Mount Moran (5.11).
Eu já fiz algumas dessas vias, como a parte de
cima da Exum Ridge (5.4), Owen-Spalding (5.4), Serendipity
Arete (5.9), South Face do Baxter’s Pinnacle (5.9),
the Snaz (5.10a), Irene’s Arete (5.10a) e várias
outras que não comentarei aqui. Por mais que
as duas primeiras vias sejam fáceis de nível
técnico, a necessidade de combater o mau tempo,
a altitude, e o cansaço de já ter feito
uma caminhada íngreme de aproximação
de uns 8 a 9 km. fazem com que elas fiquem mais desafiantes
de um modo geral. A chegada ao cume do Grand Teton é
uma coisa extremamente maravilhosa e positiva. Estar
no alto de uma montanha como o Grand te dá uma
sensação indescritível de liberdade
e paz que só é “atrapalhada”
pela necessidade de descer antes que uma tempestade
entre e por alguns grupos de escaladores. Esse é
certamente um dos pontos fracos de escalar o Grand.
No verão (jun/jul/ago), o fluxo diário
de pessoas que escalam o Grand é tão grande
que várias vezes nem dá vontade de ir.
Aí, então, você se vira para outras
montanhas e/ou escaladas, não tão populares,
como Mount Owen.
Mount Owen (c.4267m) é definitivamente uma das
melhores (e mais cansativas) montanhas a serem escaladas
nos Tetons. Eu fiz a Serendipity Arete (5.9) e dividi
em 2 dias. O primeiro dia foi uma caminhada de aproximação
de 3 horas (8 km) até o bivac, e de lá,
no outro dia começando às 4am, foram mais
2 horas de caminhada íngrime em “gullies”
com pedras soltas horrendas até a base da via.
A via em si tem 10 enfiadas, sendo 5 ou 6 de escalada
e outras de trepa pedra, o crux é na última
enfiada, num entalamento de meio corpo meio sinistro.
Dali para chegar ao cume, ainda é preciso pegar
as 2 últimas enfiadas da Koven Route, bem fácil.
O cume é maravilhoso, com uma vista incrível
das faces norte e leste do Grand e face norte do Teewinot.
Só que aí que começa a parte mais
‘difícil’ (por ser longa e cansativa)
da escalada, a descida pela West Ledges, com vários
trechos expostos para desescalar até o acampamento,
coisa que durou cerca de 4 horas. E, é claro,
dali mais 8 km até Jenny Lake e dali outros 5
km até o Climbers Ranch, onde eu estava ficando.
Cheguei morta às 11:30pm na minha cama.
Para quem não quer andar muito, a melhor opção
é sem dúvida nenhuma a South Face do Baxter’s
Pinnacle (5.9). Para a aproximação, você
pode pegar o barco que cruza o Jenny Lake (só
funciona no verão), e de lá são
apenas 30 minutos de caminhada. Essa é uma das
escaladas mais populares dos Tetons, justamente por
ser de fácil acesso. São de 3-5 enfiadas
(dependendo da sua confiança em escalaminhar
e escalar fáceis graus), sendo a segunda um 5.8
bem fácil e a última o crux. Essa última
enfiada certamente vale pelo resto todo. Ela começa
no crux e “bum” você se encontra em
exposição total, bem na passagem do crux
(que pode ser 5.9 ou 5.10a, dependendo da onde você
vai). Esse movimento é protegido por um piton
bem velhinho, mas na fenda pode rolar um back-up com
um nut. Depois disso rola uma passagem em oposição
bem tranqüila (5.7) e gostosa. Essa é uma
das poucas vias que você quase não precisa
equipo móvel (se você tiver acostumado
com exposição), pois existem vários
pitons da época da conquista (uuhh).
The Snaz (5.10a) e Irene’s Arete (5.8) são
duas vias incríveis, na mais pura escalada em
rocha, com fendas ótimas para proteção.
Irene’s Arete é definitivamente uma das
melhores vias que já fiz, são 5 enfiadas
de boa escalada, com um anfiteatro de pedras e montanhas
em volta de você. Com todas as enfiadas ótimas
e com várias variações, fizemos
também uma diedro maneiríssimo (5.9) e
depois uma passagem meio negativa (5.10a) o que tornou
a via ainda melhor. The Snaz não fica para traz,
com 9 enfiadas (porém só fizemos 6, pois
depois era só trepa pedra), a via é uma
bonita linha com passagens em diedros, tetos, e entalamento
de meio corpo. Fizemos também uma enfiada em
variação (5.10c) em fenda de dedo sinistra,
pois depois do crux (os primeiros 3 ou 4 metros), a
via é um constante 5.9 até a ancoragem
sem nenhum lugar para descansar.
Enfim, os Tetons têm um pouco de tudo para pessoas
que se amarram em escalada em alta montanha e no estilo
tradicional (são muito poucos os grampos que
existem, ainda bem), tirando ser um lugar lindo demais
e com uma energia positiva incrível. Para quem
se interessar, a melhor época é de final
de maio (ainda com neve em vários trechos) a
início de setembro e o melhor e mais barato local
para ficar é o Climbers Ranch, no parque mesmo,
onde você encontra parceiros (se precisar) e informações
sobre vias. Existem 2 guias para a região, o
mais completo é o A Climber’s Guide to
the Teton Range, de Leigh N. Ortenburger e Reynold G.
Jackson, e o outro é um guia de vias clássicas
que esqueci o nome (ops).
Matéria Publicada no Mountain Voices # 64.
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