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Crazy Muzungus
por: Kika Bradford


Primeiramente gostaria de agradecer a todos que torceram por nós e que nos ajudaram e/ou se propuseram a nos ajudar nessa escalada. Eu, que não faço parte do CEC ou de nenhum clube, fiquei muito impressionada e agradecida pela atenção e carinho dedicado pela galera do Carioca a nossa equipe desde o planejamento até a nossa volta. Muito obrigada!

Esse é um relato de uma escalada (ou melhor tentativa de uma escalada) numa montanha chamada Garrafão, no Parque Nacional Serra dos Órgãos. Éramos três na equipe: eu, Flávio Carneiro (Bagre) e Adrian. Para realizar essa escalada, é necessário conseguir uma permissão especial (com analise de nossos currículos de escalada) com a direção do Parque, pois o Garrafão fica numa área intangível do mesmo. Iniciamos a caminhada dia 30/09/03 e voltamos ao nosso lar no dia 6/10/03... Inicialmente, esperávamos fazer 1 dia de caminhada até a base da escalada, 3 dias escalando, mais um dia de caminhada para o carro, mas nem tudo sai sempre como esperamos...

Essa foi uma escalada que desde o final de agosto vínhamos (eu e o Bagre) pensando e analisando os detalhes. Marcamos a data para depois da festa da FEMERJ e saímos em busca de mais um participante para ralar com a gente montanha acima durante 5 dias (bom, isso era o que a gente esperava). Adrian se juntou a nossa equipe por convite do Flávio que o conhecia mais do que eu. O time estava completo.

Duas semanas para a escalada, tudo que eu pensava era na dita cuja: era a busca do croqui, de informações sobre a via, comida, equipamento, etc e tal. No sábado antes da partida (dia da festa da FEMERJ), nos juntamos no Limite para fazer a lista de equipamentos e discutir os detalhes da expedição... Segunda-feira, nos encontramos de novo lá para arrumar a mochila e os 2 haulbags (mochilas especiais para escaladas de big wall, ou seja com mais de um dia de duração)... Caramba, como tem equipamento!

Ainda tivemos que adiar nossa ida por 1 dia por causa de chuva... Mas na terça-feira (30/9), partimos para nossa aventura. Yuri nos deixou na ponte do Rio Soberbo e começamos a andar pelas pedras, indo sempre rio acima... Descalços, cheios de pudor para não molharmos os tênis, meias e roupas (o que certamente acabou depois de 1 dia). E andamos, andamos, andamos. Depois de eu carregar a mochila por 1 hora, troquei com o Adrian por um haulbag 3 vezes meu tamanho, que apesar de estar mais leve que a mochila, certamente não o parecia. Com o bag me jogando de um lado para o outro a cada passo, diminui minha velocidade consideravelmente.... Não deu outra, logo vimos que era melhor eu carregar a mochila o tempo todo enquanto que o Flávio e o Adrian penavam com os bags. Andamos o que nos pareceu uma eternidade... pedras escorregadias e o rio um pouco alto nos atrasaram bastante... tombos eram constantes e tivemos que puxar os haulbags várias vezes durante nossa subida. A camaradagem entre a gente era impressionante, todos se ajudando e procurando ajudar quando possível, a equipe estava se dando muito bem, fator essencial numa big wall. À tarde, a chuva veio nos saudar, bem na hora que avistamos um totem e uma seta que aparentemente não indicavam porcaria nenhuma, ou melhor, indicavam o nosso 1o bivaque (local onde passamos a noite). Depois de 11 horas caminhando, pensávamos estar pertinho da entrada da trilha... doce ilusão.

No dia seguinte, com os ânimos revigorados, retomamos nossa jornada rio acima. Sobe pedra, desce pedra, cruza o rio, anda em pseudo-trilha, trepa mato, puxa haulbag, deixa haulbag e procura por onde passar, e 8 horas depois de muitos perrengues (mas muitos mesmo), ainda nem sinal de trilha. O desânimo estava estampado em nossas caras, a fatiga tomava conta de nossos corpos e até um certo desespero de nossas mentes. Minhas pernas, que já haviam reclamado no dia anterior, pediam arrego e cada passada era uma luta contra a dor de um músculo provavelmente distendido. Depois de ligar para o Daniel, continuamos por mais alguns minutos até nosso 2o bivaque no meio de uma trilha.

3o dia na “trilha” foi meio desgastante... na verdade, já estávamos desgastados e frustrados... O que era para levar 1 dia já se estendia bastante... Acreditando já estar na dita “fortaleza”, voltamos alguns preciosos minutos e ligamos para o Sampaio que nos direcionou ainda rio acima... Demos meia volta, continuamos a transpor as cachoeiras até que finalmente achamos a tal da fita vermelha (um marco da trilha), o que nos desanimou muito por acharmos que ainda nos encontrávamos longe do início da trilha... Adrian já começava a pensar em descer, Flávio só em subir e eu... indecisa.... Deixamos os bags e nos mandamos rio acima a procura da trilha. Flávio subiu antes enquanto eu esperava pelo Adrian. De repente, só escutamos berros de felicidade vindos do meio da mata.... era a maldita da trilha que o Flávio tinha achado. Nessa altura, o Adrian já havia se decidido a voltar... e com um voto de continuar e outro de retroceder, sobrou para mim o voto de decisão.... Não tinha como simplesmente dar meia volta e retornar depois de 3 dias para achar aquela maldita trilha. Decidi continuar, ainda mais que o Flávio tinha dito que era uma trilha bem clara... Bom, clara ela era, e também era uma pirambeira ferrada muito íngrime, com vários cipós para agarrar nas mochilas te enchendo o saco, mas era a trilha.

No auge do desespero, 2 horas depois do início da trilha, o Adrian grita que tinha achado o bivaque! Finalmente! E que bivaque! Uma grutinha, com quarto, cozinha e corredor! Um luxo! Depois de pegarmos água e descansarmos um pouco, tocamos para a base da via com quase todo equipo. Deixei os dois lá e voltei para o bivaque para prepará-lo e cozinhar (não depois de me perder durante um tempinho). Esperando por eles, sozinha no bivaque, se escuta tudo quanto é tipo de som, ainda mais lutando contra o sono para poder ajudá-los na descida. Um noite de sono bem dormida....

No dia seguinte, o Adrian levou as águas para a base da via para a gente e nós fomos com os equipos, prontos para nossa aventura. Adrian partiu rio abaixo e nós, montanha acima. Para ganhar tempo, falei para o Flávio guiar já que ele tem mais experiência em cliff que eu. Era muita coisa nova para mim, minha primeira big wall, tive que aprender a içar haulbag, manter a parada arrumada, organizar os trilhões de equipos, tudo isso enquanto dava segurança... nada fácil! E para completar, com o haulbag bem abaixo de mim, quando o Flávio precisava de algo, eu tinha que trava-lo no ATC, rapelar até o bag, pegar o que ele precisava, voltar para a parada, me ancorar, colocar o equipo na retinida e destravá-lo... Ufa!

Mas tudo indo relativamente tranqüilo até a 3a enfiada.... Comecei a jumarear num pêndulo... mochila relativamente pesada nas costas (para a hora do dia, já parecia um chumbo)... e começou a luta contra as plantas... lutando contra o haulbag que se prendia em todo canto de vegetação, lutando contra a mochila que imitava o haulbag, lutando contra a fatiga, fome e sede, lutando contra a dor que sentia em minhas pernas pelo músculo distendido.... até que minhas forças se exauriram... Chegou um ponto que minha fatiga era tão grande que não conseguia nem mais jumarear.... O bag preso a uns 3 metros acima de mim, a mochila me puxando para o lado oposto da onde eu estava indo, e eu sem forças para continuar... Fiquei nessa luta uns bons 10 minutos até que resolvi arrastar a mochila em vez de carrega-la, o que ajudou bastante. Mais uns 10 metros na frente, depois de muito mato na cabeça sendo jogado pelo bag, ele prende de novo... e assim se repetiu umas 3 ou 4 vezes... Até que finalmente, cheguei no platô... tão exausta que nem conseguia sair da corda... Nos arrumarmos ali foi uma arte de economia de espaço, onde para cozinhar, eu segurava a panela, e o Flávio o fogareiro... Porém, a recompensa estava ali em volta da gente... um vale lindo, um céu estrelado, picos deslumbrantes, tudo parecia encantado.

Depois de uma noite bem mal dormida, mas bem mal dormida mesmo, acordamos com o sol iluminando e resplandecendo nos picos rochosos a nossa volta. A Baía lá em baixo, os picos meio roseados com a luz do sol, a sombra do garrafão do outro lado do vale, tudo muito mágico nos dando forças para continuar. Comecei a guiar um pseudo 4o grau (que 4o!!!!), depois de tentar pela esquerda, resolvi mudar a estratégia e ir pela direita, coloquei um alien ruinzinho numa fenda cheia de musgo e fui pro lance, afinal era só 4o... não deu outra, cai de bunda no platô que por sorte era bem fofinho, cheio de terra. Pisei no grampo, e depois de continuar tentando em livre, finalmente vi o buraco de cliff. Porra! Antes eu soubesse, evitaria uma queda e economizaria vários minutos. Depois de chegar na outra chapeleta, minha perna começou a “gritar” de dor; para ganhar tempo, passei a guiada para o Flávio. Acima da gente, um diedro alucinante, fendas maravilhosas, paraíso para móveis. Minha felicidade só não era total por eu não estar guiando, mas sabia que era melhor por causa da porcaria da minha perna. Quando comecei a jumarear, ainda lutei um pouco contra a dor, até que pesando todos os fatores, falei para o Flávio que estava sinistro e que estava difícil de continuar. Era ainda o início do dia e minha perna já estava assim... isso iria nos atrasar ainda mais... a comida já bem contadinha para apenas 2 dias mais... Juntando a dor, o atraso, a comida, resolvi que era melhor descer... foi sinistro desistir e retroceder... o dia estava lindo, estávamos entrando no filet mignon da via, já tínhamos passado por tantos perrengues e o pior... encarar o Soberbo de novo não era nada animador, mas era a coisa mais sensata a se fazer. É horrível largar a via no momento mais maneiro dela... É sinistro se sentir culpada por não fazer cume, e é muito difícil ter lucidez e responsabilidade nesses momentos para retroceder... mas o Flávio foi show de bola e me deu toda força que era possível.

O rapel não foi totalmente “dado”, mas foi tudo bem. Chegando na base, ligamos para o Adrian para ele vir nos ajudar a descer o rio no dia seguinte. Da base até o bivaque foi outra aventura... Os 2 muito pesados, caindo toda hora... O jantar foi uma festa, comer o máximo para não precisarmos carregar para baixo. A noite foi bem dormida, e a aparição do Daniel no meio da noite foi surreal. Fui acordada com um “farol” nos olhos e pensei “porra, o que que o Flávio tá fazendo com essa lanterna nos meus olhos?”, mas logo percebi que não era a lanterna dele... achei que fosse caçador, outra equipe... até a risada do Daniel solucionar o mistério... Ele subiu o rio em 3 horas à noite (!!!) para nos encontrar e nos ajudar a descer! Sinistro...

O dia seguinte foi só arrumar as coisas e partir. Logo encontramos com o Adrian e Barão Highlander que foram também nos ajudar. No rio, paramos em poços maravilhosos, tiramos várias fotos dos picos (que finalmente pudemos ver do rio) e nos divertimos. Aquele lugar mágico e especial que é a Serra o é ainda mais para o Barão.... O pouco que curtimos juntos do local foi especial. Foi especial todos terem ido lá nos dar uma ajudar, mas o Barão acima de tudo por sua história com o local.

Definitivamente aprendi muito nessa escalada, fiz novos amigos e reforcei outras amizades, conheci uma área restrita a poucos, uma área maravilhosa do nosso Brasil... Por tudo isso, valeu e muito! E ano que vem estaremos lá, mas dessa vez, só ocumeinteressa!

Valeu!



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